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Postal de Arranhó N° 368: A despedida da Rocha do Conde d´Obidos

Memórias arranhoenses da Guerra no Ultramar III

Graças a Deus, as novas gerações desconhecem a sensação que tinham todas as famílias arranhoenses nos idos anos 60 e 70, ao pensarem, chegada a hora de verem publicado o edital convocando os mancebos que faziam 18 anos nesse ano, para se apresentarem à inspecção para o cumprimento do serviço militar obrigatório.

Entre 1961 e 1975, o nosso País esteve envolvido na então chamada Guerra do Ultramar, hoje também chamada Guerra Colonial, onde os rapazes depois dum período de instrução militar no continente eram enviados para um dos então chamados territórios ultramarinos onde havia conflito armado intenso: a Guiné, Angola, Moçambique, Timor, etc.

Foi uma experiência marcante ouvir falar e sentir a ansiedade e a preocupação que viviam as famílias naquela época, e, sobretudo termos tido a nossa própria experiência, eramos ainda miúdos, de acompanhar a minha mãe e a família à despedida do meu tio Manuel Domingos quando este partiu para Angola, embarcado num navio, no cais da Gare Marítima da Rocha Conde de Óbidos [1] em Lisboa.

Era impressionante o ambiente de dor e tristeza que se sentia naqueles milhares de pessoas, familiares, que acorriam para se despedir do seu filho, neto, afilhado, namorado, noivo, esposo…

Naqueles tempos as famílias arranhoenses eram confrontadas com o afastamento do jovem durante o período da instrução militar num qualquer quartel, naturalmente longe de Arranhó e do concelho de Arruda dos Vinhos. E devemos recordar que naquela época as comunicações eram bem mais difíceis e os recursos económicos escassos.

E quando chegava a notícia da mobilização para o Ultramar era sempre um choque.

Foram muitos os rapazes arranhoenses “na flor da idade”, e as respectivas famílias, que viveram este calvário. Ninguém melhor que os próprios poderão falar das luzes e das sombras que experienciaram, uns cá na terra em Arranhó, os outros em África em território desconhecido senão mesmo bastante perigoso onde a guerra e a morte se apresentavam cruéis
.
Muitos tiveram que “interromper” as suas vidas e partir para o Ultramar, alguns, poucos, conseguiram sair para o estrangeiro “fugindo à tropa”, outros, poucos, as famílias conseguiram de algum modo conhecer alguém com poder para “livrar” o seu rapaz de “ir para a guerra”…

Arranhó sofreu imenso naquele perìodo histórico que não deve ser esquecido nosvelhos álbuns de fotografias guardados num armário.

Notas:
[1] o terminal portuário fica em frente do Palácio dos Condes de Óbidos, datado do séc. XVII, também chamado de Palácio da Rocha, por se situar sobre uma imponente rocha. Nos dias de hoje está bastante modificado pois apresenta um terminal de contentores feito sobre um vasto aterro feito sobre o rio Tejo.

#HistóriaLocal

© Direitos Reservados, Reprodução Proibida | Arranhó Memória e Gratidão, compilação e foto de José M. Ferreira Luiz