Monografia da Freguesia de Arranhó II [1]
1.2 – A Coreografia
A apresentação da coreografia de algumas danças está imperfeita e incompleta, direi antes bastante imperfeita e incompleta. A apresentação de fotografias aonde se mostrasse algumas posições e a competente música completariam numa forma mais exacta as poucas danças que ainda é possível recuperar arrancando-as ao esbatimento dos tempos, [2] graças à memória de uma pessoa que tendo mais de setenta anos, numa forma impressionante canta melodias de quando garota e declama versos muitos deles ouvidos apenas uma vez. As iniciais GdaC (Gertrudes da Conceição ou mais conhecida por Estrudes Quita) analfabeta, nascida e criada na serra de Alrote, mora em Arranhó há mais de 50 anos.
O Fandango
Era dançado por homens. Só dois, um em frente do outro, empertigados, polegares enfiados nas mangas dos coletes, cotovelos agarrados às costelas, pé esquerdo assente no solo e direito curvado para trás, apoiado na biqueira. O outro companheiro de dança, na mesma posição, com os dois pés assentes e juntos.
Toque a música que eles estão em posição de arranque.
A actuação vai ser ordenada, ora um, ora outro, tomando a forma de despique. Cada dançarino, observado por todos os restantes, presentes na BRINCADÊRA, vai dar todo o melhor da sua sabedoria.
Enquanto aguarda a sua actuação, mantendo sempre os polegares enfiados nas mangas do colete, posição que durante toda a dança se não altera, pousada e compassadamente, anda de um lado para o outro num espaço de um metro e nunca deixando de observar o companheiro.
O actuante vai escovilhar – batimento com a biqueira e o calcanhar da bota – mantendo um pé fixo, depois o outro e finalmente escovilhando com os dois. É tanto melhor dançarino quanto mais lesto é na execução dos batimentos e variações dos mesmos.
Na parte final da dança actuam os dois em simultâneo, movimentando os dois pés sempre no mesmo local do recinto e de frente um para o outro. À medida que o despique caminha para o final, a velocidade dos pés vai aumentando, chegando mesmo a tornar-se empolgante.
A música aqui não podia ser cantada por causa do ritmo. O instrumento tanto podia ser um harmónio como uma GAITA DE BÊÇOS, comprada em qualquer feira da região. [3]
Este fandango era idêntico ao ribatejano.
(continua)
Notas:
[1] Transcrição de manuscrito dactilografado: Lourenço, Carlos Alberto Alves | Monografia da Freguesia de Arranhó, 1976.
[2] Temos no nosso concelho uma notável associação – o Rancho Podas e Vindimas de Arruda dos Vinhos – que muito tem feito para preservar estas tradições e costumes etnográficos.Também se mantêm activos na nossa região e com trabalho muito interessante, o Rancho de Folclore Os Ceifeiros da Bemposta, e o Grupo de Danças e Cantares da Seramena
[3] As feiras mais conhecidas eram a do Sobral de Monte Agraço, a de Bucelas, a da Malveira, e, a de Vila Franca de Xira.
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© Direitos Reservados, Reprodução Proibida | Arranhó Memória e Gratidão, compilação e foto de José M. Ferreira Luiz
