Memórias arranhoenses da Guerra no Ultramar I
A guerra no então chamado Ultramar português, [1] marcou de forma indelével uma época histórica da vida nacional e também da vida arranhoense.
Um hábito que naqueles tempos se criou em Arranhó, como no resto do País, foi as famílias arranhoenses se juntarem na época natalícia onde houvesse um aparelho de TV, para ver e ouvir as ‘Mensagens de Natal’ que a RTP ia recolher nos teatros de guerra nas então províncias da Guiné-Bissau, Angola, e Moçambique.
Eram emocionantes testemunhos de saudade, esperança e amor familiar, gravadas para a RTP, onde as famílias aguardavam ansiosamente por ver e ouvir os seus familiares (filhos, irmãos, noivos, esposos) a desejarem um Feliz Natal e Ano Novo para os seus entes queridos na metrópole [2]. Era nessa altura muito comum os jovens militares incluirem nas suas mensagens uma célebre frase final carregada de significado:
– “Adeus, até ao meu regresso!”
Para além dum momento de celebração do espírito próprio da quadra natalícia, as “Mensagens de Natal” eram ainda para a retórica do Estado Novo um importante veículo de propaganda, legitimando e introduzindo alguma normalidade no teatro do conflito, e reforçando a moral das tropas, condições necessárias à continuidade do esforço de guerra.
Ninguém ficava indiferente em Arranhó às Mensagens de Natal, que reflectiam as vidas em suspenso, a preocupação com o destino dos militares ausentes, e, também, as duras condições no terreno de guerra.
Nem todos regressaram vivos, e a maioria trouxe com eles sequelas do stress em combate, ou da experiência da proximidade com a guerra.
Notas:
[1] A Guerra no Ultramar desenrolou-se entre 1961 e 1974, envolvendo a mobilização de 800’000 jovens maiores de 18 anos.
[2] chamava-e metrópole a Portugal continental, e províncias ultramarinas, aos territórios sob administração portuguesa em África, Índia, Timor, etc.
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© Direitos Reservados, Reprodução Proibida | Arranhó Memória e Gratidão, compilação e foto de José M. Ferreira Luis
