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Postal de Arranhó N° 343: Os camionistas da palha

Arranhó tem uma história muito rica nos fluxos logísticos rodoviários nacionais, iniciada nos anos 60 através dos chamados camionistas.

Normalmente por conta própria, ou por conta de outrém, muitos arranhoenses negociavam e transportavam diversas mercadorias a granel: sucata, palha, castanha, batata, cebola, melão, etc.

Vamos falar neste postal dos camionistas que actuavam no circuito da palha.

A logística da palha tinha a sua origem nas grandes planicies do latifúndio alentejano, e, tinha como destino final os produtores de carne e leite da zona Centro de Portugal (Figueira da Foz, Tocha, Estarreja, etc.)

A estrutura do negócio era simples e directa, quer na compra ao produtor, quer na venda ao consumidor final, e sempre em dinheiro vivo.

Era comum os comerciantes procurarem os lavradores, por exemplo no distrito de Beja, nos locais habituais para negociarem a palha. Também era comum já disporem duma lista de contactos telefónicos para negociar.

Estremoz e Évoramonte também eram lugares de negócio.

Nalguns casos, já existiam na origem intermediários com armazéns carregados com fardos de palha para venda.

A palha era comprada já enfardada.

Feito o negócio, o camionista dirigia-se à propriedade e carregava os fardos. Normalmente 300 a 450 por carga. Havia, como é habitual, algumas manhas na organização da carga para ludibriar a contagem do número de fardos carregados.

Os destinatários finais da mercadoria eram pequenos lavradores com ordenhas ou vacarias, normalmente da rede de clientes já conhecidos de cada camionista comerciante.

Os encontros ao domingo debaixo do choupo, no centro de Arranhó, eram muitas vezes palco de conversas “trocadas” para fazer face à comum “espionagem”, pois os homens estavam sempre atentos uns aos outros ao que cada um falava.

Se algum se descuidasse com a conversa, corria o risco de na segunda-feira seguinte chegar ao seu destino e já um concorrente se lhe ter antecipado.

Havia também aos domingos um costume muito típico chamado de ‘alcaparra’. Os homens gostavam de evidenciar o bolso da camisa todo caído com o peso de enormes maços de notas que traziam para o encontro debaixo do choupo, e nas tabernas do António Raimundo ou do Natalino.

Houve muitos arranhoenses dedicados a este produto, e contamos convosco para conseguir registar o maior número de nomes possível, recordamos alguns:

A. Baptista,

António Gageiro

A. Mendonça,

A. Ribeiro,

Estevão Justino,

Herculo Russo,

Joaquim Narciso,

José Casimiro Gonçalves

José Lourenço Rodrigues (Zé da Fonte),

J. Henrique Lourenço,

Manuel Dionísio,

Manuel Quintas,

Quirino Narciso Mateus (Crino),

Vítor Carpinteiro

Era uma actividade dura, o camionista deixava a sua casa na segunda-feira de madrugada, e só regressava no sábado à tarde. Dormia na cabine, ou debaixo do camião, e carregava e descarregava a mercadoria muitas vezes sem ajudante.

Nessa altura apareceram os conhecidos “camions” Bedford e Scania com maior capacidade de carga..

A arquitectura da habitações em Arranhó também apresentou uma alteração interessante nos anos 50 e 60, pois começaram a surgir casas com primeiro andar elevado onde se localizava a habitação, e um rés do chão onde funcionava a garagem e armazém da palha, e onde também havia uma cozinha e uma casa de banho.

#UsosCostumesLocais

© Direitos Reservados, Reprodução Proibida | Arranhó Memória e Gratidão, compilação e foto de José M. Ferreira Luiz