Uma memória muito forte das minhas visitas a Arranhó era a da criação doméstica de animais.
Nos anos 50 e 60 ainda era muito comum ver em muitas casas arranhoenses um espaço dedicado à criação de animais para consumo próprio ou para venda.
Com madeiras muitas vezes reaproveitadas e redes de arame, se construíam abrigos precários (coelheiras e galinheiros) para fazer criação.
Encontrávamos então coelhos, galinhas e galos, patos, etc., que eram diligentemente tratados e alimentados diariamente com sobras da cozinha e, conforme os casos, com rações granulados ou milho.
Eram óbviamente motivo da curiosidade e enlevo das crianças, o que também sucedeu connosco que vivendo na capital estávamos mais longe desta realidade.
Como a economia doméstica arranhoense era apertada, procurava-se fazer algum dinheiro quer vendendo os ovos e pintos, quer os animais entretanto criados. Vários arranhoenses se dedicavam a comprar avulso casa a casa, indo depois vender na capital e arredores.
Nas casas arranhoenses só se consumia em momentos muito especiais como doença ou festa.
Era para nós um momento ao mesmo tempo constrangedor e prático, assistir ao abate doméstico daqueles simpáticos animais que visitávamos e brincávamos frequentemente.
Era comum vermos na cozinha ou no pátio da casa abater e depenar um galinácio ou esfolar um coelho, recolher o sangue derramado, limpar as vísceras, proceder ao seu arranjo, tudo realizado com perícia e diligência.
Nos dias de hoje, o preconceito e a hipersensibilidade têm afastado as crianças e jovens destas realidades vivenciais, agora remetidas para a distância dos matadouros autorizados. Também aqui a realidade da morte é escondida. Hoje, vai-se ao supermercado comprar os animais já preparados para cozinhar, e alguns até evitam comer carne.
Claro que não é agradável ver cortar o pescoço à galinha, ou dar o golpe de cutelo com a mão no pescoço do coelho, segurando-o pelas patas traseiras, mas devemos evitar hipocrisias, pois nunca como nos dias de hoje se banalizou tanto a violência e a crueldade gratuitas nos média, nos jogos, e na internet.
Naqueles tempos matava-se apenas o necessário para comer, cuidando dos animais domésticos com zelo e respeito, colocando cada um no seu lugar. Não havia crueldade nem violência, apenas tradição e realismo prático. E nós vimos e testemunhamos essa realidade de harmonia com a natureza criada.
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© Direitos Reservados, Reprodução Proibida | Arranhó Memória e Gratidão, compilação e foto de José M. Ferreira Luiz
